O velho golpe em novo disfarce

Já fazem quase quatro anos que o tema foi abordado, de forma bem didática, em um episódio do seriado “A grande família” na TV Globo. Hoje, aquele longínquo capítulo exibido na televisão soa quase como uma premonição do “boom” de esquemas de pirâmides financeiras que emergiram e ainda estão emergindo na internet, e que recentemente, tamanha a assustadora proporção tomada por tais fraudes, chegaram até a veícular propaganda no horário do programa “Fantástico” na mesma TV Globo, e renderam até reportagem especial sobre a intervação da justiça no maior destes esquemas, a empresa Telexfree.

O golpe já é extremamente antigo, e tornou-se famoso e conhecido até hoje graças ao americano Charles Ponzi, autor da primeira fraude deste tipo que obteve grande repercussão. Estes esquemas já assombraram o Brasil em grandes proporções nos anos 90 e 2000, através dos esquemas denominados “Boi Gordo” ou “Avestruz Master”. Mesmo assim, o surgimento de novos disfarces para este tipo de fraude não é exclusividade do Brasil, recentemente, nos EUA, investidores qualificados foram fisgados em um esquema de pirâmide disfarçado de clube de investimento comandando por um, até então, respeitado gestor, chamado Bernard Madoff. Entre os investidores que confiaram em Madoff para gerir parte de seus recursos figuravam bancos conhecidos por nós brasileiros, como o HSBC e o Santander.

Se um golpe deste tipo consegue enganar entidades e pessoas deste porte nos EUA, imagine no Brasil, que é um país que sofre muito mais com a falta de educação financeira. Recentemente, com a facilidade de propagação através da internet, este tipo de golpe ressurgiu com uma intensidade tremenda. O caso do estado do Acre é exemplar. Estimativas apontam que cerca de 10% da população do estado esteja envolvida no esquema da Telexfree. No mesmo Acre e em outros estados do Brasil, divulgadores da Telexfree, como são chamados os integrantes do esquema, chegaram a realizar protestos e carreatas para contestar a decisão judicial que bloqueou o esquema e manifestar apoio à empresa, inclusive, a juíza do caso chegou a receber ameaças de morte por conta de sua decisão. O que nós resta é acreditar que estes manifestantes agem desta maneira por falta de educação financeira, e não por ganância, já que eu mesmo ouvi sobre casos de pessoas bem instruídas que, mesmo sabendo da natureza duvidosa dos ganhos, convocaram cada vez mais pessoas para o esquema visando garantir o seu retorno em detrimento daqueles que estão nos níveis mais baixos da pirâmide. A pergunta que fica é, porquê a demora da justiça em agir para acabar com a farra? Os danos poderiam ser bem menores se a justiça fosse mais rápida, já que o esquema é amplamente divulgado há meses. É quase impossível não conhecer alguém que já se deparou com anúncios, propagandas ou chamados para adentrar no esquema, principalmente nas redes sociais, e os indícios da pirâmide financeira estavam lá desde o começo.

A nova arma destes “sistemas de recrutamento” para disfarçar a fraude é a utilização de produtos de fachada em áreas técnicas de pouco conhecimento da população em geral, como planos VOIP ou rastreadores veículares. O grande X da questão para identificar os esquemas fraudulentos está na falta de foco e competitividade destas supostas “empresas” com este tipo de produto. É fácil perceber que as atividades principais destes esquemas buscam somente o recrutamento de novos membros, e não a divulgação, venda ou distribuição do produto em si, que normalmente pode ser facilmente encontrado por um preço mais barato (e com melhor qualidade) em qualquer um dos concorrentes. Esta prerrogativa vale também para bebidas, energéticos, shakes emagrecedores, entre outros.

A conclusão que fica então, é desconfiar de qualquer oferta de dinheiro fácil, sem esforço, cujos ganhos estejam atrelados ao montante de gente que você consegue recrutar e não ao seu desempenho na venda de determinado produto ou na prestação de serviços. Procure conhecer e pesquisar sobre o destino do seu dinheiro antes de investir. Especialmente no caso de empresas que se utilizam do MMN (Marketing Multi-Nível), procure pesquisar sobre as origens e os sócios destas empresas. Em uma pesquisa de míseros segundos no Google conseguimos encontrar indícios de fraude e diversos materiais bem fundamentados questionando a legalidade de diversas destas empresas, como a própria Telexfree, BBom, Multiclick, Blackdever, Priples, entre outras. Algumas delas, já com processo investigativo em curso pelo Ministério Público. Ou seja, da mesma forma que é fácil ser assediado por este tipo de esquema na internet, esta mesma ferramenta pode ser utilizada em seu favor para se livrar destas furadas. Faça um bem para a economia popular e não jogue seu dinheiro na mão de golpistas.

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